O QUE É PRECISO PARA SER ESPECIALISTA EM SEGURANÇA PÚBLICA?

Associação dos Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar

O QUE É PRECISO PARA SER ESPECIALISTA EM SEGURANÇA PÚBLICA?


(*) Ernesto Puglia Neto
A presença na mídia de especialistas em segurança pública é cada vez mais frequente. E tem de todo tipo: por ideologia, por orientação, por profissão, etc. Você pode escolher qualquer um ou, pelo que vemos, até se apresentar como um! Essa situação no Brasil, ao invés de ajudar a aperfeiçoar o sistema de segurança pública, tem causado muita confusão.
Ao contrário disso, para ser um comandante de polícia, é necessário muito estudo. E, quando falo em comandante, não me refiro aos oficiais de alta patente, pois quase 3/4 dos municípios do estado de São Paulo são comandados por sargentos. Para esses comandantes, que exercem sua liderança dentro de um espaço territorial variado, a preparação é intensa e os afazeres são árduos.
Em São Paulo, a formação de um sargento exige dois cursos. São quase três anos de formação continuada, além de uma experiência de muitos anos de serviço. Para os oficiais, o concurso é um dos mais concorridos do Brasil e a formação é realizada em quatro anos, em regime integral, com estágios operacionais e administrativos que os prepararam para as missões que enfrentarão. Mais ainda: a ascensão na carreira é mediante cursos e concursos internos, exigindo cada vez mais dedicação e estudo.
Entre os afazeres diários desses profissionais, estão a indispensável análise criminal, com base em modernos sistemas de inteligência, que permitem geoposicionar as patrulhas no terreno, para neutralizar as ações do crime.
Além disso, devem motivar seu efetivo a produzir resultados, superando diversos obstáculos que geram desmotivação, como a falta de um plano de carreira e um dos piores salários do País.
O resultado desse trabalho dos comandantes policiais-militares, em São Paulo, foi a notável queda sequencial ao longo de mais de uma década dos crimes de homicídio, além do controle dos demais índices de criminalidade, o que gerou repercussão internacional e fez do estado um exemplo a ser seguido, conforme afirmam até mesmo os autointitulados “especialistas”.
Policiais bem orientados e motivados a realizarem seu serviço estão mais propensos a estar próximos de onde está o crime (a análise espacial do crime e o consequente geoposicionamento das patrulhas servem para isso). Esse fato se traduz em prevenção, ou seja, crimes evitados – no ano de 2019, somente até outubro, a PMESP prendeu em flagrante 137 mil pessoas e apreendeu 120 toneladas de drogas e 8 mil armas).
Porém, essa atuação próxima ao crime possibilita o confronto, já que muitos infratores da lei decidem enfrentar a polícia. Esses confrontos são extremamente preocupantes do ponto de vista policial, pois expõem ao risco de morte os agentes da lei, os cidadãos de bem e os infratores.
É importante salientar que 18% dos infratores que decidem confrontar com a polícia militar são mortos. Oitenta e dois por cento acabam feridos, presos ou fogem. Entretanto, a PMESP vem adotando medidas para minimizar a situação de exposição de seus policiais (com a consequentemente diminuição de mortes decorrentes de oposição à intervenção policial), há anos, mesmo sabendo que o confronto é uma opção que cabe primeiramente ao infrator.
Para alguns ditos “especialistas”, a maior parte deles com formação em áreas diversas e uma longa experiência na leitura de trabalhos internacionais sobre prevenção criminal (que buscam impor a nosso País, a despeito das diferenças culturais e sociais), essas mortes são um absurdo. Muitas vezes, emitem opinião sem respaldo científico, sem vivência profissional ou até fazem análises com base em notícias de jornais.
Para melhorar a qualidade de suas opiniões, seria interessante que esses “especialistas” passassem, no mínimo, por um treinamento no método Giraldi de tiro para a preservação da vida, para sentir o estresse que é estar como alvo de alguém que poderia estar atirando em você, com a única intenção de matá-lo!
Além disso, caros “especialistas”, convido-os a vestirem uma farda e ficarem 12 horas patrulhando as ruas da cidade, equipados com quase 10 quilos de armamentos, coletes, etc, e respondendo a chamados dos quais só se conhece o que foi informado ao Centro de Operações e que se transformam, numa fração de segundos, de uma averiguação de pessoa suspeita em tentativa de roubo a caixa eletrônico por bandidos fortemente armados.
Após alguns anos de experiência nesse dia a dia, aí sim esses “especialistas” podem voltar às suas leituras para, quem sabe, terem a capacidade de comentar sobre a atividade policial na prática, no cenário em que vivemos hoje (quem é policial sabe, que não é recomendado comentar ocorrência da qual não se participou, por isso o foco na atividade).
Até que isso aconteça, poupem-nos de suas opiniões vazias de realidade e cheias de preconceito, como a mais recente invenção: a “chacina policial” (gostaria muito que me explicassem o que é isso). Parem de desinformar a população, por ignorância ou ideologia.
* É Coronel da Reserva da PMESP; Consultor internacional em gestão e liderança; Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública; Especialista em Direitos Humanos pela USP; Professor do curso de Pós Graduação em Segurança Pública da Universidade Santa Cecília e do doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública da PMESP.

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