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O ETERNO “9 DE JULHO DE 1932”: ONTEM, HOJE E SEMPRE!

A Força Pública, atual PMESP, em defesa da Democracia.

Ten Cel PM Sérgio Marques (*)

Há 89 anos, o “9 de julho de 1932” é uma data que representa Liberdade e Democracia no Brasil. Tantas vezes esquecida, outras mal compreendida ou pessimamente interpretada, muitas lendas depreciativas ainda permanecem. O Movimento de 1932 recebeu a pecha de comunista, fascista, contrarrevolucionário ou mesmo separatista (regionalista e partidário). Era o poder da mídia, da comunicação de massa, o rádio nas mãos dos ditatoriais apresentando argumentos falaciosos, que hoje receberiam o nome de “fake news”.

“1932” foi o mais importante movimento de opinião pública do país. Não foi uma Revolução de São Paulo e muito menos dos paulistas. Contudo, a Bandeira do Estado de São Paulo, consagrada em 1932 com suas 13 listras alvinegras, é a única que possui em seu semblante o mapa do Brasil.

Um pequeno interregno se faz necessário.

A esperança por dias melhores, com a assunção de Getúlio Vargas, em 3 de novembro de 1930, após o vitorioso Golpe de Estado, decorrente da Revolução de Outubro de 1930, ficava cada vez mais distante.

Desde outubro de 1930, o Congresso Nacional, as assembleias e as câmaras municipais estavam fechadas pelo então Governo Provisório de Vargas – tão provisório que demoraria 15 anos… A Constituição de 24 de fevereiro de 1891 fora rasgada. Governava-se na base da discricionariedade, por decretos e não pela força da lei. Prisões políticas complementavam o período imoral. Astutamente, Vargas, logo após sua assunção ao cargo de presidente, desarmou a então poderosa Força Pública paulista, reduzindo o seu parque bélico com a subtração de seus canhões e aviação militar.

Contudo, antes da eclosão do Movimento de 1932, procedeu-se, primeiro, o pedido popular, objetivando o retorno da ordem constitucional. Gigantescas manifestações, concentradas na Praça da Sé, na capital bandeirante, pediam o retorno do Estado Constitucional. Duas delas, de 25 de janeiro e 22 maio do corrente ano foram as maiores. Quando São Paulo vai às ruas o Brasil muda… A imprensa paulista e carioca emplacaram essa campanha do retorno da legalidade.

Entretanto, apesar do apelo popular, a voz das ruas não foi ouvida pelo Palácio do Catete (sede do executivo federal, na cidade do Rio de Janeiro), sendo ignorada. O governo ditatorial até marcara eleições para o ano seguinte, mas a desconfiança em relação a Getúlio era grande. A paciência democrática coletiva estava no limite. O Brasil despertara contra a tradicional visão autoritária de governança, objetivando a libertação das peias da tirania.

Todos esses fatos desembocaram no “23 de maio de 1932” com a morte de quatro manifestantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, na Praça da República, na Capital. Era a faísca do Movimento. Das inicias dos nomes daqueles tombados surgiu o acrônimo MMDC que se tornou organização secreta e tramou pelo argumento restante, último, o das armas, já que o apelo democrático não atingira o objetivo.

O congelante inverno de “9 de Julho de 1932” teve nas lanças de guerra a resposta do período de livre arbítrio, sem lei, que desembocou na escuridão da ditadura. O jogo político, como no xadrez, encontrou seu último lance… A redemocratização deveria ser feita à base de sangue, idealismo, suor e lágrimas. E assim o foi.

A alta cúpula militar revolucionária não era paulista. Pouco importa, pois os ideais eram constitucionalistas. Os aliados, em outras unidades federativas, logo no início da Revolução foram presos por elementos Getulistas. Então, somente a porção sul de Mato Grosso permaneceu fiel ao idealismo.

A indústria civil paulista rapidamente foi transformada em bélica, com o intuito de atender às infinitas demandas de guerra. Em vez de panelas, capacetes, munições, granadas, morteiros e outros armamentos. A mulher teve lugar na indústria. Trabalhou na confecção da famosa farda cáqui. Foi enfermeira nos Hospitais de Sangue. Em alguns casos, até combatente, como Maria José Bezerra, a “Maria Soldado”, eleita, no Jubileu de Prata da Revolução, “a mulher símbolo 1932”. Hoje, descansa no Mausoléu/Obelisco do bairro do Ibirapuera.

No dia seguinte ao estouro da Revolução, 10 de julho, partiram para os fronts de batalha 9.000 soldados da Força Pública (atual PMESP), espinha dorsal do Exército Constitucionalista, e 3.000 integrantes do Exército Brasileiro da guarnição do Estado de São Paulo. Não houve tempo para despedidas.

O próprio comandante da Força Pública, coronel Júlio Marcondes Salgado, e o inventor de um morteiro, capitão Marcelino, armamento desenvolvido durante o conflito, foram vítimas fatais em um dos testes realizados no dia 23 de julho de 1924. O local da tragédia, hoje, é o terminal de passageiros do Aeroporto de Congonhas, famoso pela ponte aérea Rio-São Paulo.

O interventor federal em São Paulo, o paulista Pedro de Toledo, indicado por Getúlio Vargas em maio de 1932, nomeou um novo secretariado, a contragosto do chefe do executivo federal. Permanecendo ao lado dos constitucionalistas, no dia 10 de julho foi aclamado Governador do Estado de São Paulo pelo povo paulista, Exército e Força Pública.

Nas semanas seguintes, ao toque de sentido, mais de 70.000 civis se apresentaram nos locais de alistamentos, de todas as classes sociais, sem distinções. Irmanados com os guerreiros da Força Pública paulista, Exército e Guarda Civil, os voluntários civis uniram-se na obra em comum, a reconstitucionalização do Brasil.

Mas, afinal, quem eram esses idealistas? Eram paraibanos, jovens, farmacêuticos, militares, húngaros, pernambucanos, pintores, alemães, bibliotecários, negros, mecânicos, italianos, solteiros, cearenses, jornalistas, baianos, capitães, telegrafistas, mineiros. Pilotos, sexagenários, generais, espanhóis, engenheiros, judeus, pardos, portugueses, do Mackenzie, soldados, escreventes, gaúchos, libaneses, professores, paulistas, russos, tenentes, alagoanos, comerciantes. Maranhenses, brancos, goianos, esportistas, paranaenses, bombeiros, escoceses, vaqueiros, cariocas, advogados, cabos, potiguares, ferroviários, ingleses, dentistas, sargentos, sapateiros, bancários, ambulantes. Casados, lavradores, motoristas, agrimensores, do largo São Francisco, arquitetos, tenentes, austríacos, bancários, mato-grossenses, eletricistas, capixabas, índios, japoneses etc.

Treinados por integrantes da Força Pública, após rápido adestramento, os orgulhosos voluntários, do histórico uniforme cáqui e do cachecol branco, logo foram enviados ao front, inseridos nos inúmeros batalhões de voluntários.

O Exército Constitucionalista, composto pelos soldados da Força Pública, Exército, Guarda Civil e voluntários civis assim foi distribuído:

  • Frente Norte (Vale do Paraíba): fronteira com o Rio de Janeiro;
  • Setor Leste: fronteira com Minas Gerais;
  • Frente Sul: fronteira com o Paraná;
  • Frente Litoral: em especial, na cidade de Santos e Ubatuba, devido aos seus portos; e
  • Frente de Mato Grosso: os sul-mato-grossenses lutaram nas direções norte e oeste.

Mas o armamento era restrito. Possivelmente, de 36 a 40 mil soldados constitucionalistas pegaram em armas, com munição racionada, artilharia limitada e pouquíssima aviação. Apesar das claras limitações, lá foram os soldados da lei para as trincheiras. Mas a Revolução, que geograficamente definia-se pelo teatro de operação principal, em São Paulo, tinha caráter nacional.

O sul do Mato Grosso, à época uníssono, de mãos dadas com São Paulo, na dor e na glória, com seus voluntários, sua Força Pública e as guarnições do Exército daquela localidade.

Do Paraná, aderiu ao sacro Movimento, com apoio material, o 5º RCD – Regimento de Cavalaria Divisionária, do Exército Brasileiro, cuja sede era na cidade de Castro. Lutou nas fraldas da Mantiqueira, na Frente Norte de operações.

Em pleno solo gaúcho, o Levante de Soledade e o Combate do Fão, na região do Vale do Taquari, em solidariedade aos ideais dos irmãos de armas paulistas. O número de mortos de ambos os lados ainda é um mistério.

No Pará, o duplo apoio. O primeiro, da Fortaleza de Óbidos, impiedosamente abatida pela Ditadura. E em sua capital, Belém, estudantes de Medicina, Direito e secundaristas pegaram em armas e dominaram o Quartel da Polícia e do Corpo de Bombeiros. Após tenaz resistência, deixou indelével a marca constitucionalista, com o sangue derramado.

Da Bahia, os estudantes secundaristas de Salvador. Similar aos seus homólogos de Belém-PA, também se fizeram presentes durante a Revolução.

Na antiga Capital da República, Rio de Janeiro, a prisão de estudantes, proibição de manifestações e a censura da imprensa.

Enquanto as lutas se devolviam, o governador Pedro de Toledo, em 29 de agosto de 1932, adotou o Brasão de Armas, sendo um dos símbolos do Estado de São Paulo. Como lema, inscrito no Brasão, “PRO BRASILIA FIANT EXIMIA”, que significa “Pelo Brasil Façam-se Grandes Coisas”. Representava o profundo sentimento de brasilidade do povo paulista.

Mas o poder bélico e humano da ditadura era muito superior aos constitucionalistas. São Paulo se viu cercada pelas tropas arregimentadas no Exército, forças públicas, Marinha de Guerra e voluntários. O ar pertencia aos Getulistas. Já no final de setembro de 1932, os soldados ditatoriais ocupavam as cercanias de Campinas, Sorocaba e Guaratinguetá. A situação se tornava cada vez mais crítica. Nas linhas de frente paulistas, falta de armamentos, munição, ânimo… Apenas oito anos antes, a bela cidade de São Paulo, durante os tristes episódios que a envolveram na Revolução de 1924, mulheres foram violentadas, além da subtração do patrimônio, fato típico de uma cidade conquistada.

Com a situação irreversível, coube ao Comandante Geral da Força Pública, coronel Herculano de Carvalho e Silva, a coragem para realizar a paz com os ditatoriais. Dia 2 de outubro de 1932, no Colégio Arnolfo de Azevedo, em Cruzeiro-SP, apesar das opiniões em contrário, o armistício foi assinado, colocando fim naquela matança entre irmãos, preservando-se vidas e patrimônio.

Os soldados mortos pela ditadura oficialmente nunca foram anunciados. Estudos relacionam entre 2 a 5 mil homens. Oficialmente, 634 soldados constitucionalistas perderam a vida durante a refrega, 30% deles da Força Pública, um alto preço pago por uma única Instituição. A derrota no campo militar em 1932 não foi em vão. Dois anos após, o ideal do Movimento foi conquistado, com a promulgação da Constituição Federal de 1934.

“VIVERAM POUCO PARA MORRER BEM. MORRERAM JOVENS PARA VIVER SEMPRE.” A frase, escrita na fachada, sobre os três arcos de entrada do Monumento em homenagem ao Soldado Constitucionalista de 1932 (Mausoléu/Obelisco do Ibirapuera) relata uma dura realidade da Guerra. 60% dos tombados na Revolução hoje dormem o sono eterno no Mausoléu/Obelisco do Ibirapuera. Outros, em cemitérios espalhados por São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso do Sul e em muitas trincheiras, onde tombaram.

Como naqueles dias, mesmo com o sacrifício da própria vida, policiais militares, diuturnamente, defendem as pessoas, garantido a Liberdade, os Direitos Humanos e, acima de tudo, a Democracia, institutos fundamentais em nossa sociedade.

Que o espírito de 1932, de honra, sacrifício e amor ao Brasil continue aceso em nossos corações.

 

(*) Ten Cel PM Sérgio Marques
Associado DEFENDA PM, Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, Bacharel em Direito pela Uniban, Pós-graduado em Política e Relações Internacionais pela FESP/SP, formado pela ADESG – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra e licenciado em História pela Faculdade Sumaré.

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