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A DOR DE UM PAI ENTERRANDO SEU FILHO

(*) Luciano Quemello Borges

São dez horas da manhã de um sábado ensolarado. Enquanto tomo um café em um copo de plástico e confiro meu aplicativo de mensagens, duas crianças brincam próximas a mim, no chão mesmo: um garoto, de no máximo nove anos de idade, e uma menina chamada Jéssica, que completou sete faz um mês.

Deram uma lousa e giz para eles, que se distraem… um descobrindo o que o outro desenha. “É uma árvore”, arrisca a pequena. “Não”, responde o jovem mocinho, que revela: “É um sorvete”.

Coloco meu celular no modo silencioso e retorno ao velório. Daqui a pouco será sepultado um Soldado da Polícia Militar, assassinado na recente madrugada por criminosos que explodiram um caixa eletrônico.

Quando penso que estou velho para me surpreender, a vida revela novos desafios. O Soldado era meu filho, e a Jéssica, que continua lá fora brincando com o garoto de camiseta azul, é minha neta.

Daqui a pouco o sepultarei. Fui Sargento da PM a vida toda, e me aposentei faz dez anos. Sempre trabalhei no serviço operacional, o que nas gírias da profissão chamamos de “zero um” ou “RP” ou simplesmente “rua”.

Mas isso não importa mais.

Somos números, assim como qualquer servidor é um número para sua empresa. Somos substituíveis nesse meio. Antes mesmo que eu me tornasse um veterano, um inativo, outro tomou meu lugar. O que fiz foi conseguir sobreviver após trinta e dois anos uniformizado no assento de uma guarnição.

Meu filho não. Partiu antes dos trinta de idade.

Não consigo enxergar onde reside a justiça de um pai enterrar sua prole, mas os abraços que estou recebendo chegam com as frases “Deus quis assim”, “Que Deus o conforte”, “Que Deus lhe dê forças para superar esse momento”. Nas redes sociais, o trecho “Combateu o bom combate” é publicado com frequência, em especial por seus amigos de formação.

Um Soldado da Polícia Militar está fardado em um caixão. Jurou de pé oferecer sua vida pelo povo. Está deitado e coberto pela bandeira de seu Estado, que o remunerava com um dos piores salários do país, o que me leva a refletir, nessa altura da minha existência, se vale realmente a pena acelerar tanto uma viatura para salvar um desconhecido que sequer valoriza nossa luta.

Eu me considero um homem forte, daqueles que chamam de “policial raiz”. Não costumo chorar. Até agora resisti. Até agora, pois minha neta apareceu, pulou em meu colo e perguntou: “Cadê o papai, vovô?”.

O garoto que brincava com ela foi até a sala ao lado, onde estava sendo velada uma mulher. Ela era enfermeira, e sofreu cinco golpes de faca, desferidos por um homem que surtou no hospital diante da demora no atendimento. Era a mãe dele.

“Vovô… cadê o papai?”.

“Trabalhando, meu anjo… trabalhando” – respondi.

No televisor do saguão, o jornal de alcance nacional anuncia: “Tiroteio na favela deixa dois suspeitos de tráfico mortos. Moradores denunciam que a PM foi truculenta e chegou atirando”.

(*) É Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo e associado da DEFENDA PM.

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