DISCURSO DO MAJOR PM DEL VECCHIO NO CSP 2018

Prezados associados:

Segue abaixo o discurso feito pelo orador da turma de formandos do Curso Superior de Polícia (CSP/2018), Major PM Del Vecchio, do CPI-2, realizado no dia 07 de dezembro de 2018 na Sala São Paulo.
Parabéns Major Del Vecchio e a todos associados da DEFENDA PM que concluíram mais uma etapa na carreira.
JUNTOS SOMOS MAIS FORTES!

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(*) Jacintho Del Vecchio Junior

Ser policial militar nunca foi uma tarefa fácil, mas hoje consiste em um desafio ainda maior. Isso porque o momento em que nós vivemos é extremamente complexo, pois desafia até mesmo a capacidade de análise de nossos melhores especialistas. Ele se compõe evidentemente de uma série de aspectos: econômicos, culturais, comportamentais, políticos, tudo isso permeado pelo processo de globalização e de crescimento exponencial da importância da tecnologia em nosso cotidiano. Mas hoje, como minha fala deve ser breve, eu pretendo centrá-la em apenas um desses aspectos que, apesar de não ser o mais evidente, eu reputo como a chave de compreensão de muito do que estamos vivenciando em nossa experiência social.
Desde o início do século 20, testemunhamos um processo lento e gradual de fragmentação da cultura ocidental, em que todos os valores e padrões de comportamento que a caracterizavam desde o século XVII vêm paulatinamente perdendo espaço, ao menos enquanto ortodoxias. Albert Schweitzer, um dos grandes nomes do seu tempo, já prenunciava esse estado de coisas. Ele escreveu em 1905: “a humanidade vive um período de imbecilidade sem precedentes. A razão disso, todavia, é muito simples: ousamos erigir uma cultura sem fundamento moral. Eis tudo.” Eu concordo com Schweitzer, mas esse não é um processo unidirecional, pois além de termos erigido uma cultura sem fundamento moral, a decadência da cultura acelera a perda das referências morais compartilhadas pelo grupo social.
Esse ciclo de retroalimentação leva diretamente à relativização dos valores morais; com isso, toda e qualquer alternativa de comportamento passa a ter um discurso subjacente que a justifica, e ganha, assim, ares de uma pretensa legitimidade. Mas o grande perigo do relativismo cultural se mostra quando, em tempos de radicalização e extremismo, as alternativas também extremas parecem ser plenamente justificáveis. Temos testemunhado exemplos dessa dinâmica mundo afora, e, infelizmente, também no Brasil. E considerando o crescente grau de volatilidade da opinião pública, esse status quo vem se mostrando uma ameaça cada vez maior à ordem social.
E diante desse ambiente caótico e contraditório, há uma figura sui generis, que catalisa todo esse estado de coisas em seu cotidiano: o policial militar. Isso porque, na qualidade de defensor das leis e dos cidadãos, existe uma axiologia subjacente ao exercício das atividades da Polícia Militar. Imersos em uma evidente crise de legitimidade ou, no mínimo, de confiabilidade das instituições, são os policiais militares que enfrentam em seu cotidiano a difícil tarefa de garantir a estabilidade de nosso sistema político-jurídico na prática, pois eles são os pontos de contato mais imediatos, diretos e visíveis do cidadão para com seu governo.
Assim, para além de todos os riscos institucionais e pessoais que sempre caracterizaram a gestão da polícia, a contemporaneidade cobra um preço muito alto dos gestores das instituições policiais, pois quando a cultura se relativiza, relativiza-se também, a própria viabilidade das instituições governamentais e da ordem jurídica que a sustenta.
A pergunta natural que se coloca, então, é: como superar esse estado de coisas?
Certamente não com doutrinação moral estatal. A liberdade de pensamento e de expressão está consubstanciada como direito fundamental garantido constitucionalmente. Também não como uso da força: Espinosa já havia nos ensinado que a força não é o melhor mecanismo para conquistar corações e mentes.
Por outro lado, podemos evidenciar a pertinência desse compromisso com a lei e com a ordem de forma pragmática: mostrando os bons resultados que uma atuação séria, honesta, profissional, eficiente e eficaz pode trazer à nossa sociedade. Para isso, é preciso começar a pensar a Polícia Militar não apenas como uma instituição responsável pelo policiamento preventivo ou por ações de repressão imediata a crimes; nem apenas como um órgão de gestão da Segurança Pública, mas transcender essa visão em favor da construção de um modelo de polícia que seja, antes de tudo, uma instituição garantidora de direitos. Mas qual a chave para tornar concretas essas aspirações?
Claro que eu não tenho uma resposta inequívoca para esse dilema. Talvez ninguém a tenha, mas vou me permitir aqui formular uma hipótese.
Na cidade de Nancy, na França, há um prédio comum, com uma grande placa de bronze em sua entrada, que eu tive a curiosidade de ler. Descobri que naquele local, durante o período de ocupação alemã na França, havia sido utilizado pela Gestapo, e onde haviam sido torturados e mortos vários membros da resistência francesa. A mensagem na placa dizia o seguinte: “em homenagem aos corajosos franceses que preferiram o sofrimento à traição, e cuja força moral garantiu a vitória sobre a violência da Gestapo”.
Força moral. Eu creio que seja esta a chave. A capacidade de continuar convicto acerca do que somos e do que fazemos, apesar das dificuldades, contra todas as perspectivas, apesar das derrotas, apesar das perdas. Acreditar profundamente naquilo a que nos dedicamos, para podermos inspirar a nós mesmos e aos outros.
Em 2018, durante o Curso Superior de Polícia, eu tive oportunidade de conviver com outros 47 oficiais das polícias militares do Estado de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Maranhão e de Roraima.
Senhoras e senhores, eu agradeço a Deus a oportunidade de ter estado com vocês ao longo deste ano. Com alguns, foi um primeiro contato; com outros, a ocasião de estreitar laços de amizade, assim como de desfrutar da companhia de amigos queridos de longa data. E podem estar certos, todos representam muito para mim, por tudo que aprendi nesse período em que compartilhamos novos conhecimentos, incertezas, alegrias, frustrações e esperanças, que são elementos da vida de todos nós. As senhoras e os senhores levam consigo meu profundo respeito e minha irrestrita admiração.
Durante o curso, poucos temas não foram objeto de discussão; temos perspectivas divergentes sobre uma série de aspectos. Bebemos de várias fontes. Travamos contato com juristas, economistas, gestores públicos, jornalistas, comandantes das Forças Armadas, comandantes de unidades especializadas da Polícia Militar, militantes de esquerda, de direita, ativistas sociais, youtubers, antropólogos, sociólogos, filósofos, policiólogos, e até com alienígenas.
Mas apesar dessa pluralidade e das diferenças entre nossas visões de mundo, das divergências de opinião (sempre sadias em um ambiente acadêmico), eu me sinto privilegiado, por um motivo muito simples: em todos os meus colegas de curso eu enxergo sem qualquer sombra de dúvida a força moral necessária ao exercício da nossa profissão em nível de excelência.
É preciso também enaltecer nossas famílias neste dia de festa. Obrigado por existirem em nossas vidas. E desculpem o clichê, mas é fato que palavras são incapazes de expressar tudo que vocês representam para nós.  Pais, mães, esposas, maridos, filhos, filhas, avôs, avós, sintam-se também vitoriosos hoje, pois muito do que nos propusemos a fazer é em função do amor incondicional que sentimos por vocês.
Nosso reconhecimento também à Academia de Polícia Militar do Barro Branco e ao Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar do Estado de São Paulo, a seus comandantes, Coronel Sérgio Felleto e Coronel Eduardo de Oliveira Fernandes, e a toda a equipe de oficiais, praças e funcionários civis que contribuíram para o sucesso do curso. Nossa gratidão alcança também nossos professores, palestrantes, orientadores de tese, membros de bancas examinadoras, assim como cada pessoa que, de uma forma ou de outra, nos ajudou a obter essa vitória.
Gostaríamos também de expressar nossa gratidão a todas as instituições que contribuíram para nosso processo de aperfeiçoamento, desde unidades da própria Polícia Militar quanto órgãos externos, como algumas secretarias de estado (educação, habitação, justiça e cidadania), além da Marinha do Brasil, do Insper e da Casa Militar, locais onde fomos recebidos com a maior deferência e cordialidade.
Mas é preciso registrar um agradecimento especial à Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra”, na pessoa de seu Diretor, Dr. Júlio Gustavo Vieira Guebert. No período de 15 dias em que o CSP integrado foi desenvolvido na Acadepol, nossa recepção não foi apenas cordial. Foi fraternal, pelo que agradecemos imensamente.
Durante a fase integrada, tivemos a oportunidade de interagir por 30 dias com os delegados de polícia de primeira classe que hoje nos acompanham como uma turma única da cúpula das polícias de São Paulo. Pudemos criar e fortalecer verdadeiros laços de amizade e respeito mútuo. Somos testemunhas de que a proposta do CSP integrado certamente consiste em um dos mais significativos esforços para consolidar a integração entre essas duas instituições fundamentais para a segurança pública paulista.
Já encaminhando minha fala para o final, René Descartes ensinava que ler os grandes autores do passado é como ter a oportunidade de tomar contato com suas melhores idéias. Nesse espírito, eu gostaria de lembrar aqui a obra de um grande poeta inglês, Rudyard Kipling, quando ele faz algumas exortações importantes para que nos tornemos bons seres humanos.
Kipling sugere que cada um de nós seja capaz de manter sua serenidade, mesmo quando todos a seu redor já a perderam; 
Que mantenha a confiança, mesmo quando todos duvidam de ti
Que saiba esperar, sem perder a esperança;
Ou sendo enganado, não lance mão de mentiras; 
Ou sendo odiado, não se renda ao ódio; 
Que seja capaz de pensar, mas sem fazer dos pensamentos um propósito em si; 
Que seja capaz de sonhar, mas sem se fazer escravo dos teus sonhos; 
Que possa encarar triunfo e desastre, e trate esses dois impostores da mesma maneira; 
Que mantenha a humildade entre plebeus, sem se vulgarizar, e a altivez entre reis, sem perder a naturalidade; 
E, completando esses conselhos de Kipling, eu ouso aqui sugerir mais alguns cuidados que devemos observar enquanto oficiais da Polícia Militar no século XXI:
Jamais tomar tradição por estagnação. Quando a tradição é só uma forma vazia, é como uma árvore frondosa, mas oca em seu interior: qualquer vento pode levá-la ao chão.
Não confundir cultura institucional com idiossincrasia. Ela deve nos identificar, não nos isolar.
Lembrar que no estado democrático de direito, o exercício do poder deve se dar unicamente em função da consolidação de uma sociedade livre, justa e solidária.
E, finalmente, ter a consciência de que, por mais grandiosa que sejam as estruturas que venhamos a comandar, elas são irremediavelmente formadas de pessoas, que são o grande capital da Instituição, e merecem ser vistas e respeitadas como tais. E quem não atenta para esse fato, não merece verdadeiramente a alcunha de comandante.
Senhoras e senhores, obrigado por sua atenção e que Deus nos abençoe.

(*) É Major da Polícia Militar do Estado de São Paulo, trabalha atualmente no CPI-2, sediado em Campinas, formou-se no Curso Superior de Polícia/2018 e é associado da DEFENDA PM.