O DOLOROSO HÁBITO: MORREU MAIS UM POLICIAL

(*) Temístocles Telmo Ferreira Araújo

O hábito de algo nos faz crer que esse algo é normal. Com 32 anos dedicados à Polícia Militar do Estado de São Paulo, lembro-me do juramento que fiz e que todo policial militar faz, e em todos os dias de sua vida profissional e pessoal, já que com o tempo, percebemos que somos um só.

“Incorporando-me à Polícia Militar do Estado de São Paulo, prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado, respeitar os superiores hierárquicos, e tratar com atenção os irmãos de armas, e com bondade os subordinados; dedicar-me integralmente ao serviço da pátria, cuja honra, integridade, e instituições, defenderei, com o sacrifício da própria vida.” (PMESP)

Acreditem não há diferença na morte de um policial de serviço ou de folga. Policial morre porque é policial, a forja com que um policial é feito induz a ser agente de segurança 24 horas do dia, é o anônimo das ruas. Não é super-herói, é um ser humano que entre muitos outros resolveu ser diferente.

Não saberemos ao certo como o Soldado PM Joel Lourenço da Silva, do 38º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, acabou perdendo a vida em decorrência de disparo de arma de fogo, no bairro Vila Bela, Zona Leste de São Paulo. Os procedimentos instaurados vão por certo reproduzir a fidelidade dos acontecimentos e é importante, pois o juramento de vida que fazemos precisa do legado deixado pelo herói que precocemente se foi.

Garoto, era assim que eu o chamava. Sim, tive o privilégio da sua convivência e de convidá-lo para voltar ao 1º Batalhão de Polícia Rodoviária, quando o vi pela última vez no dia 14/12/17, quando ali era comandante.

Como morte de policial é hábito e ninguém se importa, já que raras são as coberturas realizadas, pude presenciar isso agora pela manhã no nosso Mausoléu – cemitério do Araçá. Somente nós policiais militares, Secretário de Segurança Pública, seus amigos e familiares se faziam presente, ninguém mais.

Os poucos periódicos que trataram do assunto trouxeram como título a morte de PM, mas quando se lê o sensacionalista conteúdo, já deparamos com a repugnante notícia: as pessoas se recusaram a parar e os suspeitos fugiram. Em plena Teoria do Discurso hipócrita, a mídia é assim tendenciosa. Saibam que não eram pessoas, mas sim quatro criminosos que tinham roubado um carro. Mesmo que para os extremistas, criminoso não deixa de ser pessoa. Mas vocês sabem o que estou falando e como estou!

Infelizmente essa é nossa realidade, é o mais do mesmo, estamos sozinhos nessa guerra, a formalidade do papel e a insensibilidade da dita autoridade judiciária é o que impera, já que plantonista do caso liberou os suspeitos, fazendo o juízo de valor já ali no frio da madrugada, que eram inocentes, já que embora estivessem num carro roubado, com um homicida eles ficaram no carro.

Pergunto: onde estão os instrumentos da Prisão Temporária e da Prisão Preventiva. Doutor morreu um policial militar, deixou mais de 90 mil amigos, uma viúva e uma filha de 6 anos. Será que não podemos ter compaixão? Claro que não ….a forma é maior que o mérito.

Embora de 2015, ainda reputo como relevante a fala do professor Alcadipane, já que na literalidade da matemática perversa, tem-se quase 1 policial morto por dia no BrasilVale frisar que os dados, como todos da área de Segurança Pública no Brasil, podem estar subnotificados o que sugere que a tragédia pode ser ainda maior. (SILVEIRA, 2015 p. 24)

O cenário atual sem dúvidas não nos parece consolador, restando-nos a esperança de melhoras, como que um milagre, já que as mazelas políticas estampam as notícias todos os dias, por dependermos numa democracia da política, parece que “dias piores ainda virão!”.

A sociedade é descrente com o Estado e de tudo que o ente possa oferecer; Educação, Saúde e Segurança. Policial é tido como inimigo da sociedade, essa só clama pelo mesmo quando precisa. Mas se não for atendida de pronto e bem, logo a classe é toda desacreditada.

Aos quatros cantos se discutem a violência policial, todos têm uma solução para tal, como se policial fosse fabricado com o que há de melhor. Ao contrário, policial é forjado com o que há na sociedade.

Por certo é difícil a carreira, ninguém um dia disse que seria fácil. Mas precisamos resgatar o sentimento de pertencimento da sociedade, para que a sociedade se importe com o seu Estado, e que lembre, que em lugar nenhum do mundo se há sociedade organizada sem polícia, é importante lembrar Thomas Hobbes: “Os pactos sem a espada são apenas palavras e não têm força para defender ninguém.” A polícia é a espada que defende a sociedade civilizada. É a instituição garantidora mais essencial da República, pois a experiência mostra que, sem ela nas ruas, a Constituição Federal é imediatamente revogada pela Lei da Selva. […]”(BEZERRA).

É preciso que os que pensam a organização da sociedade moderna não tenham a morte do policial como um hábito ou como mais um. É preciso que compreendam que a morte de um policial (agentes da segurança), representa a morte do Estado, a falência da Democracia.

Que infrator da lei, não pode ser alcunhado de cidadão infrator. Cidadão somos todos nós que pregamos e fazemos o bem. Aquele que optou pelo caminho do crime, é marginal, está à margem da sociedade.

Não se pode aceitar a cultura do “bandido bom é bandido morto”, longe disso, mas é importante não se odiar a polícia, polícia tem por lei o dever e o direito de usar a força, “Polícia só é polícia porque é autorizada legitimamente a usar a força. Gostemos ou não, é preciso reconhecer essa autorização e discutir se e como nossa polícia está preparada para usar a força corretamente”. (GUIMARÃES, et al., 2013).

É preciso que o assunto seja discutido sem paixões, sem ódio, e que nossa sociedade faça a pergunta e cobre respostas: Qual o motivo de tantos policiais serem mortos no Brasil? Caso contrário a triste realidade reportada pelo ilustre Capitão da PM paulista Fernando Ferreira Alves, comandante do Lourenço, ecoará pela eternidade MAIS UM POBRE MORREU NA FAVELA.

Mas este pobre que morreu na favela estava ali para defender a sociedade que não se comove com sua morte, ao contrário, ri sarcasticamente diante da tragédia, este pobre rapaz pobre é mais um Policial Militar, que como um cão pastor, deu sua vida defendendo um rebanho de ovelhas indefesas dos lobos que permeiam as vielas da favela.

BEZERRA, F. (s.d.). Ordem das Polícias do Brasil. (OPB) Acesso em 25 de janeiro de 2016, disponível em OPB: http://www.opbrasil.org.br/index.php/10-noticias/40-carta-aberta-ao-ministério-público

SILVEIRA, R. A. (2015). A Morte do Policial. (FBSP) Acesso em 25 de janeiro de 2016, disponível em FBSP: file:///D:/Documents/FBSP/anuario_2015.retificado_.pdf

 

(*) É Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo – Comando de Policiamento de Área Metropolitana 1 – Área Central de São Paulo. Doutor, Mestre e Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e de Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança – Polícia Militar do Estado de São Paulo. Pós-graduado lato senso em Direito Penal pela Escola Superior do Ministério Público, São Paulo. Professor de Direito Processual Penal, Direito Penal e Prática Jurídica Penal do Centro Universitário Assunção. Membro nato do Conselho Comunitário de Segurança Santo André Centro (2007 a 2012) e Associado da DEFENDA PM.

http://temistoclestelmo.jusbrasil.com.br/

www.defendapm.org.br

Uma resposta para “O DOLOROSO HÁBITO: MORREU MAIS UM POLICIAL”

  1. Concordo com todas as colocações Comandante, nossa Instituição sobrevive exclusivamente pelo esforço de todos nós, remamos contra a corrente, homenageamos a nós mesmos em solenidades internas, guardamos o brio da formação correta e choramos nossos mortos em intermináveis oportunidades. Uma profunda evolução social se faz necessária para que possamos ter minimamente condições melhores de trabalho, não falo nem da questão salarial, mas fundamentalmente desse pertencimento social do qual somos alijados. Obrigado pelas reflexões, nosso irmão não pode ter partido em vão. Oremos por ele e sua família e prestemos toda a assistência possível nesse momento de dor.

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