POLÍCIA: PRECISA?

(*) Elias Miler da Silva

Nos últimos meses, como tem sido noticiado pela mídia, em ao menos oito cidades do interior paulista, magistrados tem concedido liminares em ações judiciais obrigando o Estado a aumentar o contingente da Polícia Civil. O Estado recorre alegando interferência do Judiciário no Executivo. Entidades de classe reverberam as decisões alegando que a defasagem do efetivo da “polícia investigativa” impede a eficiência nas investigações.

Em março deste ano, o jornal o Estado de São Paulo publicou reportagem explicando que a Polícia Civil de São Paulo está atualmente com 26 mil integrantes e teria uma defasagem de 9 mil policiais, os chamados “claros” no efetivo.

Sim, é verdade, há “claros” na Polícia Civil de São Paulo assim como em toda a Administração Pública.

Também é verdade que os paulistas, diante dos altíssimos índices de impunidade e baixíssimos níveis de investigação, esclarecimentos de crimes e punição de infratores (que nos casos de furtos ficam abaixo do 1% e de roubo não chegam a 5%), desejam que TODAS as polícias tenham seus “claros” preenchidos. Contudo, o mais alto “mantra” propagado pela sociedade não é o de que precisamos de mais “Polícia Civil”, ou de mais “Polícia Militar”, “Guarda Municipal”, “Polícia Federal e Rodoviária Federal” ou de outra “polícia X ou Y”, não. O “mantra”, ou mais verdadeiramente “Grito de Socorro” da sociedade, que não se confunde com nenhuma cartilha corporativa, é o de que “precisamos de mais polícia”.

Mas não apenas de mais policiais. A sociedade não quer simplesmente mais “policiais”, mas POLÍCIAS EFICIENTES que solucionem os problemas do cidadão desde o primeiro momento que chegam no local do crime.

A sociedade precisa de polícia, ou melhor, polícias que não fiquem brincando de “escravos de Jó” com o cidadão vítima de um crime, empurrando-o de um distrito policial a outro apenas para narrar, inúmeras vezes, os mesmíssimos fatos que já foram narrados ao primeiro policial, em regra o Policial Militar, que compareceu ao local e que poderia ter resolvido a sua situação. A população sabe que hoje este registro, meramente burocrático, na grande maioria das vezes, não redundará, sequer, no início de uma investigação.

O cidadão precisa de polícias que estejam preocupadas em ouvi-lo, em identificar os criminosos que o vitimaram, em prender os ladrões e assassinos e encaminhá-los o mais rápido possível ao juiz para que seja processado, julgado e responda por seus crimes. Na cidade de Nova Iorque, por exemplo, o procedimento conhecido como “da prisão à acusação” atingiu em 2015 a média de apenas 19 horas. Ou seja, do momento em que o criminoso é detido e sua prisão é registrada pela polícia até o momento em que é apresentado a um juiz, não para ser solto, mas sim para receber a acusação formal, a média é que demore apenas 19 horas (!). Há casos em São Paulo, e não são raros, em que este é quase o tempo que se leva apenas para o simples registro de um flagrante em um distrito policial, durante o qual ficarão paradas no mínimo DUAS polícias para UM infrator que sequer foi acusado perante o judiciário e que poderá ser solto em 24 horas em uma audiência de custódia.

E nem se diga que o volume de serviço é diferente pois apenas nos primeiros quatro meses de 2017 o conhecido Departamento de Polícia de Nova Iorque relatou ter prendido mais de 22 mil pessoas, ou seja, número maior do que o relativo à capital do nosso Estado que no mesmo período registrou a prisão de cerca de 19 mil pessoas, entre flagrantes e mandados de prisão.

Claro que as leis são diferentes, mas olhando-se apenas para a questão policial, um dado surpreende, pois dos cerca de 35.000 integrantes da Polícia de Nova Iorque apenas 5.000, ou seja, cerca de 15% trabalham como “detetives”, investigando crimes. Voltando-se os olhos para São Paulo, mesmo se considerados apenas os existentes e atuais 26 mil policiais civis teremos entre 25 a 30% do total de policiais no Estado investigando crimes. E para quê?

Na verdade, grande parte para ficar “puxando” hora em um distrito policial realizando um serviço cartorário, burocrático e em duplicidade que até estagiários de faculdades poderiam realizar.

Em diversos países, a exemplo de Espanha e França, o percentual de policiais dedicados à investigação também gira entre 15 à 20% do efetivo total, ou até menos, e o serviço funciona, porque em nenhum destes lugares uma polícia trabalha pela metade ou fica levando a vítima de um crime ou o cidadão de um lugar a outro apenas para repetir infindáveis vezes o mesmo fato, sem que ninguém adote a providência que verdadeiramente precisa. Nos Estados Unidos, mais uma vez, há cerca de 17.000 (isso mesmo dezessete mil) agências policiais que entregam ao cidadão o serviço completo, no momento em que ele necessita.

Diante deste fato, talvez seja hora de os magistrados paulistas que estão preocupados com os “claros” da Polícia Civil no interior do Estado, se perguntarem: para que querem mais policiais?

A sociedade quer não apenas UMA, porém TODAS as polícias fortes, mas trabalhando verdadeiramente para O QUE ela precisa. E ela sabe que sua necessidade não é mais policiais dentro de um distrito policial.

(*) É Coronel da Reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) e Presidente da DEFENDA PM.


www.defendapm.org.br

POLÍCIA: PRECISA?

 

(*) Elias Miler da Silva

 

        Nos últimos meses, como tem sido noticiado pela mídia, em ao menos oito cidades do interior paulista, magistrados tem concedido liminares em ações judiciais obrigando o Estado a aumentar o contingente da Polícia Civil. O Estado recorre alegando interferência do Judiciário no Executivo. Entidades de classe reverberam as decisões alegando que a defasagem do efetivo da “polícia investigativa” impede a eficiência nas investigações.

            Em março deste ano, o jornal o Estado de São Paulo publicou reportagem explicando que a Polícia Civil de São Paulo está atualmente com 26 mil integrantes e teria uma defasagem de 9 mil policiais, os chamados “claros” no efetivo.

            Sim, é verdade, há “claros” na Polícia Civil de São Paulo assim como em toda a Administração Pública.

            Também é verdade que os paulistas, diante dos altíssimos índices de impunidade e baixíssimos níveis de investigação, esclarecimentos de crimes e punição de infratores (que nos casos de furtos ficam abaixo do 1% e de roubo não chegam a 5%), desejam que TODAS as polícias tenham seus “claros” preenchidos. Contudo, o mais alto “mantra” propagado pela sociedade não é o de que precisamos de mais “Polícia Civil”, ou de mais “Polícia Militar”, “Guarda Municipal”, “Polícia Federal e Rodoviária Federal” ou de outra “polícia X ou Y”, não. O “mantra”, ou mais verdadeiramente “Grito de Socorro” da sociedade, que não se confunde com nenhuma cartilha corporativa, é o de que “precisamos de mais polícia”.

            Mas não apenas de mais policiais. A sociedade não quer simplesmente mais “policiais”, mas POLÍCIAS EFICIENTES que solucionem os problemas do cidadão desde o primeiro momento que chegam no local do crime.

           A sociedade precisa de polícia, ou melhor, polícias que não fiquem brincando de “escravos de Jó” com o cidadão vítima de um crime, empurrando-o de um distrito policial a outro apenas para narrar, inúmeras vezes, os mesmíssimos fatos que já foram narrados ao primeiro policial, em regra o Policial Militar, que compareceu ao local e que poderia ter resolvido a sua situação. A população sabe que hoje este registro, meramente burocrático, na grande maioria das vezes, não redundará, sequer, no início de uma investigação.

          O cidadão precisa de polícias que estejam preocupadas em ouvi-lo, em identificar os criminosos que o vitimaram, em prender os ladrões e assassinos e encaminhá-los o mais rápido possível ao juiz para que seja processado, julgado e responda por seus crimes. Na cidade de Nova Iorque, por exemplo, o procedimento conhecido como “da prisão à acusação” atingiu em 2015 a média de apenas 19 horas. Ou seja, do momento em que o criminoso é detido e sua prisão é registrada pela polícia até o momento em que é apresentado a um juiz, não para ser solto, mas sim para receber a acusação formal, a média é que demore apenas 19 horas (!). Há casos em São Paulo, e não são raros, em que este é quase o tempo que se leva apenas para o simples registro de um flagrante em um distrito policial, durante o qual ficarão paradas no mínimo DUAS polícias para UM infrator que sequer foi acusado perante o judiciário e que poderá ser solto em 24 horas em uma audiência de custódia.

          E nem se diga que o volume de serviço é diferente pois apenas nos primeiros quatro meses de 2017 o conhecido Departamento de Polícia de Nova Iorque relatou ter prendido mais de 22 mil pessoas, ou seja, número maior do que o relativo à capital do nosso Estado que no mesmo período registrou a prisão de cerca de 19 mil pessoas, entre flagrantes e mandados de prisão.

         Claro que as leis são diferentes, mas olhando-se apenas para a questão policial, um dado surpreende, pois dos cerca de 35.000 integrantes da Polícia de Nova Iorque apenas 5.000, ou seja, cerca de 15% trabalham como “detetives”, investigando crimes. Voltando-se os olhos para São Paulo, mesmo se considerados apenas os existentes e atuais 26 mil policiais civis teremos entre 25 a 30% do total de policiais no Estado investigando crimes. E para quê?

         Na verdade, grande parte para ficar “puxando” hora em um distrito policial realizando um serviço cartorário, burocrático e em duplicidade que até estagiários de faculdades poderiam realizar.

         Em diversos países, a exemplo de Espanha e França, o percentual de policiais dedicados à investigação também gira entre 15 à 20% do efetivo total, ou até menos, e o serviço funciona, porque em nenhum destes lugares uma polícia trabalha pela metade ou fica levando a vítima de um crime ou o cidadão de um lugar a outro apenas para repetir infindáveis vezes o mesmo fato, sem que ninguém adote a providência que verdadeiramente precisa. Nos Estados Unidos, mais uma vez, há cerca de 17.000 (isso mesmo dezessete mil) agências policiais que entregam ao cidadão o serviço completo, no momento em que ele necessita.

        Diante deste fato, talvez seja hora de os magistrados paulistas que estão preocupados com os “claros” da Polícia Civil no interior do Estado, se perguntarem: para que querem mais policiais?

        A sociedade quer não apenas UMA, porém TODAS as polícias fortes, mas trabalhando verdadeiramente para O QUE ela precisa. E ela sabe que sua necessidade não é mais policiais dentro de um distrito policial.

       

       (*) É Coronel da Reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) e Presidente da DEFENDA PM.

 

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O VENTRE NÃO PROTEGE MAIS

(*) Coronel Figueiredo 
Desde sempre ouvimos dizer que o lugar onde o Ser Humano mais estaria protegido seria o ventre materno: lá, no interior do corpo da Mãe, o filho estaria completamente isento de todo contato com o mundo exterior e nada lhe afetaria ou faltaria. 

Numa verdadeira engenharia divina, inexplicável em muitos aspectos pela ciência, o filho encontraria no ventre da Mãe uma espécie de bunker, estando defeso de todo tipo de ataque que lhe pudesse ser dirigido. 

O episódio recentemente ocorrido na cidade do Rio de Janeiro em que uma “bala perdida” atingiu a barriga de uma Mãe grávida ferindo a ela e ao seu filho, é simbolicamente relevante para refletirmos sobre o nível de degradação em que se encontra a nossa Sociedade, particularmente no que se refere à segurança pública.

Aquele Ser Humano que sequer tinha vindo ao mundo, onde teria mais condições para se defender, estando num lugar de proteção sagrada, foi atingido sem nenhuma possibilidade de defesa: não tem sido diferente com muitas pessoas que, no interior de suas propriedades, casas ou comércios, também são atingidas pela ação de criminosos.

A segurança pública no Brasil está na UTI e muitos insistem em não enxergar este cenário!

Com penas cada vez mais tênues, com processos penais cada vez mais morosos, com recursos e armas para a concretização dos crimes cada vez mais abundantes, com fronteiras com mínima vigilância, os criminosos estão seguros de que vale a pena estar e continuar no mundo do crime.

Se a próxima vítima será um cidadão, um policial, um pedreiro, um comerciante, um empresário, uma Mãe ou um feto, pouco importa…

De outro lado, assistimos uma imprensa que, com raríssimas e elogiosas exceções, mais se preocupa em “satanizar” o aparelho policial do que em fomentar a discussão por alternativas para a reversão do estado caótico em que vivemos: preocupam-se mais com a manchete ou o “furo” do dia do que em contribuir com propostas eficientes para reverter o cenário em que vivemos.

O feto baleado só terá a importância pela quantidade de dias que a notícia chamar a atenção…depois será esquecido!!!

Num País onde nem mesmo o ventre protege, talvez a saída seja mesmo o Aeroporto Internacional….
(*) é Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo e Associado da DEFENDA PM.