COMO DESMENTIR A FOLHA DE SÃO PAULO?

(*) Ernesto Puglia Neto

No ultimo dia 23 de maio, passei cerca de duas horas concedendo uma entrevista à jornalista Fernanda Mena, do jornal A Folha de São Paulo. A entrevista tinha como ponto central a pesquisa realizada pelo Instituto Sou da Paz, sobre vitimologia e letalidade policiais.

Fui escolhido pelo Comando da Instituição, pois tinha participado de três reuniões para discutir a pesquisa – em uma delas o próprio Instituto Sou da Paz, por intermédio de Ivan Marques, Bruno Langeani e dos responsáveis pela pesquisa, apresentou sua interpretação dos resultados, havendo uma série de observações por parte dos representantes da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que foram debatidas numa segunda reunião com o Instituto.

Já tinha sido avisado, pelo próprio Instituto Sou da Paz, que a divulgação dos resultados estaria a cargo de A Folha de São Paulo, portanto, quando surgiu a pauta para a entrevista, já estávamos preparados, com dados que talvez interessassem àquele órgão de comunicação, no intuito de bem informar à população.

As cerca de duas horas de entrevista foram tensas. Sabia que qualquer palavra que dissesse – parafraseando aquela expressão comum nos filmes americanos – poderia e seria usada contra a PMESP (inclusive nos offs sugeridos pela entrevistadora)! A entrevista foi gravada pela jornalista. E filmada por mim!

Ao longo da entrevista, expus informações sobre a Polícia Militar, principalmente quanto à formação continuada a que são submetidos os policiais militares; ao uso cada vez mais intenso de ferramentas de tecnologia de informação que orientam a aplicação do efetivo policial no terreno; às medidas de apoio psicológico aplicadas ao policial que se envolve em ocorrência de risco, tanto de folga quanto de serviço; à Polícia Comunitária, cuja filosofia implantada na PMESP é “exportada” para países da América Central, sob o patrocínio do Japão; à importância de pesquisas como essa do Instituto Sou da Paz, que enriquecem e colaboram para uma melhor prestação de serviço por parte da Polícia Militar; entre outros assuntos que tangenciam ou são transversais ao tema letalidade e vitimologia.

Na publicação, logo de pronto, podemos observar nos dois primeiros parágrafos do texto uma tentativa, no mínimo, de induzir o leitor. A repórter afirma que “Policiais são assassinados no exercício de suas funções e matam em número elevado porque chegam mais rápido ao local da ocorrência, onde encontram criminosos fortemente armados, favorecendo confrontos e mortes” e acrescenta que essas afirmações não encontram respaldo estatístico na pesquisa do Instituto Sou da Paz.

Inicialmente, deveria ficar claro de quem são essas afirmações. Ou seja, quem – PM, Sou da Paz, o AFSP – afirma que as mortes são causadas pela chegada mais rápida no local da ocorrência, pela existência de indivíduos “fortemente” armados, ou acometem somente, ou principalmente, policiais de serviço? Eu, durante a entrevista, não afirmei isso. Aliás, logo no início, a repórter deixou claro que estava buscando contestar essas afirmações.

Dessa maneira, logo de cara, podemos afirmar que a pesquisa do Instituto Sou da Paz desmentiu um ideário de alguém, ou de alguma instituição, que não a Polícia Militar! Nós, PMESP, sabemos muito bem como ocorrem as mortes de nossos policiais e como se dão os confrontos.

Há o estudo de cada uma das mortes decorrentes de intervenção policial em serviço, que envolve dos Comandos Regionais até a Comissão da Letalidade, um colegiado composto por dirigentes de várias áreas. Além disso, a Corregedoria da Polícia Militar investiga a morte de nossos policiais, em serviço ou na folga, e tem excelentes índices de solução dos casos (como foi dito na própria reportagem).

O que a Polícia Militar afirma, e não restou desmentido pela pesquisa do instituto Sou da Paz, é que o uso de ferramentas de TI, com o reflexo de geoposicionar a força de patrulha ostensiva e preventiva mais próxima de onde o crime ocorre, pode provocar mais confrontos. Se esses confrontos levam à morte, é algo que precisa ser analisado com muita clareza e isenção.

Os dados da pesquisa apontam que 49% das mortes foram causadas por abordagens a pessoas suspeitas e 34% decorreram de acionamento de terceiros ou do COPOM. Onde está o desmentido? Se o policial estiver patrulhando em local de maior incidência criminal, a chance de abordar pessoas que cometem crime naquela proximidade é maior. Também é maior a chance de, ao ser acionado, estar mais próximo ao local de um crime que está ocorrendo ou que acabou de ocorrer. Se o confronto vai existir durante a abordagem, aí já é uma questão que foge ao controle da Polícia Militar. De acordo com levantamentos da própria PMESP, em 2016, foram 1.461 confrontos. A decisão de confrontar não é do policial militar e sim do infrator. Como consta da reportagem, de todos que resolveram confrontar com policiais militares, 71% saíram ilesos e 85%, vivos.

Aqui, cabe comentar um dado interessante trazido pela reportagem: em 2016, 4 infratores foram mortos pela polícia da Inglaterra e 440 pela PM de São Paulo. A repórter afirma que esses 440 mortos representam 30% das mortes violentas em São Paulo, mas não faz a mesma referência percentual com relação aos mortos na Inglaterra. Trocando em miúdos: 4 mortos pela polícia da Inglaterra representam quantos por cento das mortes violentas havidas por lá? Se morreram 8, seria 50%. Mas esse número não está exposto na reportagem, o que induz o leitor a pensar o que quiser.

Outra informação relevante: eu afirmei na reportagem que morrem 15% dos infratores que confrontam com a PM. Quantos infratores confrontam com a polícia na Inglaterra? Esse dado também não está presente na reportagem. Poderia até ir mais longe: o que lei estabelece de pena para um infrator que confronte com a polícia, na Inglaterra?

A reportagem também não traz outro dado constante no estudo do Sou da Paz, que diz respeito a como se dá a letalidade no horário de folga. O estudo aponta que em 36% das mortes causadas em horário de folga (média entre 2013 e 2014), o policial militar agiu em razão de sua função, intervindo num crime em andamento que vitimava terceiras pessoas. Ou seja, mesmo de folga, em trajes civis, o policial militar agiu em prol da população. Eu disse na entrevista, que não queremos policiais heróis, mas que é difícil um policial não agir em uma situação dessas. E ainda perguntei à repórter: se a vítima fosse ela, ou um parente dela, o que ela desejaria que o policial fizesse, que virasse as costas e fosse embora?

Outra informação incompleta divulgada pela reportagem, embora tenha sido investigada pelo Instituto Sou da Paz, foi com relação à morte de policiais. A reportagem afirma que 70% dos policiais militares mortos estavam de folga. O Sou da Paz teve o cuidado de isolar as causas das mortes: 29,8% dos policiais foram mortos após assaltos; 20,9% morreram em circunstâncias onde houve indícios de premeditação; 11,9% foram alvejados enquanto tentavam impedir crimes contra terceiros no seu horário de folga; 9% enquanto desempenhavam atividades de segurança privada; 7,5% morreram durante o atendimento a ocorrências. 3% foram assassinados pelos próprios familiares.

A análise dos dados acima mostra que a afirmação que fiz, de que na Polícia Militar somos seres humanos, é uma verdade. Porém, mostra também, que somos seres humanos diferenciados. Somos seres humanos, pois somos, inclusive, mortos por nossos próprios familiares. Mas mostra que somos diferenciados, pois em quase 12% das mortes de policiais militares, eles estavam agindo em razão de sua função, mesmo no horário de folga. Mostra que somos diferenciados, pois em quase 21% das mortes, havia sinais de premeditação, ou seja, a vítima foi morta, pois era policial.

Em quase 30% das mortes, o policial foi vítima de crime e reagiu, tentando se defender, pois, como é sabido, o policial militar, se identificado como policial, tem chances muito grandes de ser morto (6% dos policiais foram mortos depois de serem reconhecidos como policiais e 37% foram mortos com tiros na cabeça, denotando sinais de execução).

Portanto, ao contrário do que afirmou Ivan Marques, do Instituto Sou da Paz, ouso dizer que, mesmo de folga, somos muito mais que um cidadão com a arma na mão!

Precisamos, ainda, falar do “fortemente armado”! Pergunte a alguém que teve um parente morto a tiros, se fez diferença o calibre da arma que o vitimou. Pergunte a alguém que foi vítima de um crime, que teve apontada uma arma para sua cabeça, se fazia diferença o calibre daquela arma. Qual a relação entre estar armado com um calibre de maior ou menor potencial que o da Polícia Militar e o resultado final de uma ocorrência? Será que o imaginário dessas pessoas chega ao ponto de inferir que o infrator fica “medindo” o calibre das armas antes de atirar contra um policial? Se fosse assim, era só comprar um lança granadas para cada policial militar que não haveria mais confrontos! Arma de fogo é arma de fogo. Atira e mata, seja qual calibre for!

Agora que pude acrescentar um pouco daquilo que a reportagem omitiu, sinto-me muito mais honesto com o povo paulista, com a própria Polícia Militar que me incumbiu de conceder essa entrevista, e, por que não falar, com a própria repórter Fernanda Mena que, como ficou gravado e será sempre lembrado por mim, encerrou a entrevista dizendo que saía dali “convertida”. Pena que talvez não tenha conseguido fazer ressoar essa sua “conversão” no texto que produziu.

Observações:

1) os dados constantes da pesquisa do instituto Sou da Paz, que não foram publicados na reportagem de AFSP, foram extraídos de material enviado pelo próprio Instituto a mim, os quais foram debatidos nas reuniões citadas no texto. Os demais dados são da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

2) a íntegra da reportagem possa ser vista em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1893332-7-em-cada-10-policiais-mortos-em-sp-estavam-fora-de-servico-aponta-estudo.shtml

(*) É Coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP). Diretor de Polícia Comunitária e de Direitos Humanos da PMESP. Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Bacharel em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com especialização em Gerenciamento de Pessoas. Especialista em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo. Master Practitioner em Programação Neurolinguística e Coach e colaborador da “DEFENDA PM”.

www.defendapm.org.br

3 respostas para “COMO DESMENTIR A FOLHA DE SÃO PAULO?”

  1. Prezado Comandante,

    Primeiramente parabéns pelo texto.

    Fico a pensar se devemos continuar a atender esse tipo de veículo! Sou assinante da UOL e leio todas as matérias que visualizo sobre segurança pública. O editorial é claro, qual seja, expor a Polícia Militar como Instituição. As matérias são invariavelmente tendenciosas e induzem a população a concluir e formar uma imagem negativa da PMESP.
    Sou partidário do Santo Agostinho quanto a preferir os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam , porque me corrompem, entretanto, “uma no cravo e outra na ferradura” não dá. É muita crítica para o adjetivo militar e pouco elogio para o substantivo polícia, ainda que das 30 cidades consideradas mais pacíficas estejam 19 do nosso estado e das 30 mais violentas não tenha nenhuma de SP.

    Enfim, parafraseando a Elisa Lucinda: “Só de sacanagem eu vou continuar. Quanto mais eles criticarem injustamente, mais eu vou trabalhar”, ainda que seja para pessoas da estirpe da mencionada “jornalista”, Srª Fernanda Mena.

    Abraço,

    Cesar AUGUSTO Silva
    Capitão PM

  2. Eu ainda me pergunto!! Porque temos que ficar alimentando a imprensa com nossas entrevistas????? Talvez o caminho seja trabalhar dia a dia com os mais 90 mil homens e mulheres pagos com salários dignos que as respostas seriam diarias e minuto a minuto, pois está claro que o homem bem pago trabalha satisfeito e produz melhor (se assim não fosse o governo não pagaria a mais para os policiais da escolta do governador) e consequentemente a população atingida estaria a não necessitar de imprensa tendenciosa, ela mesma defenderia a sua Polícia.

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