REINICIANDO A SAGA

(*) Humberto Gouvea Figueiredo
Parto para São Vicente.

Vou fazer o que, infelizmente, fiz por quase uma dezena de vezes no tempo em que comandei as regiões de Piracicaba e de Ribeirão Preto: irei assistir o sepultamento de mais um policial militar.

Quarenta e cinco dias depois de assumir o comando da Escola Superior de Soldados (ESSd) tenho a minha primeira perda: o Soldado Edivaldo Pedro dos Santos não era diretamente subordinado a mim, pois frequentava o módulo especifico do Curso Técnico de Polícia Ostensiva no Comando de Policiamento do Interior – 6, em Santos, mas tinha vínculo com a ESSd, quer seja pelo fato de ter estado conosco em Pirituba no semestre anterior, no módulo básico, mas principalmente porque daqui a pouco mais de 20 dias estaria novamente ao nosso lado, no Complexo do Anhembi, quando se formaria e passaria a efetivamente servir e proteger o povo de São Paulo e os brasileiros que aqui vivem ou transitam.

O Soldado Santos foi covardemente assassinado quando saía de sua casa para ir para o quartel se preparar para proteger o cidadão: com sete tiros na cabeça, teve suprimido seus sonhos de ser policial militar e de ser pai e chefe de família, pois deixou uma jovem esposa grávida de 7 meses.

Seus “erros”?

Aponto alguns: o primeiro foi o de ser pobre e não ter recursos financeiros maiores que lhe permitisse habitar mais dignamente. Ele dividia um “barraco” numa favela de São Vicente com a sogra e a esposa. Pagava quatrocentos reais de aluguel: era o que o seu poder aquisitivo lhe permitia. 

Outro “erro”: escolheu ser PM e assumiu o risco de fazer parte do grupo social que é seis vezes mais vitimado do que a população normal.

Também “errou” ao escolher o lado do bem, ao defender os valores mais nobres da Instituição a que pertencia e da Sociedade que defenderia em poucos dias.

O Soldado Santos só será lembrado por poucos dias…seu nome deverá ser lembrado nos discursos e textos que serão lidos no próximo dia 25/5, data da formatura daquela que seria a sua Turma.

Depois ele será esquecido, seu nome se transformará em um número e será apenas mais um Soldado Morto.

Algo precisa ser feito….e logo…
(*) É Coronel da Polícia Militar de São Paulo,

Comandante da Escola Superior de Soldados e Associado da Defenda PM