QUANDO A ESMOLA É DEMAIS, O SANTO DESCONFIA

 

 (*) Elias Miler da Silva

 

Passadas as festividades de final de ano e analisando em detalhes o Decreto Governamental nº 62.301, de 8 de dezembro de 2016, do Excelentíssimo Senhor Governador Geraldo Alckmin, por meio do qual todo funcionalismo público estadual recebeu, de “presente”, um merecido descanso de final de ano, nota-se que a esmola dada deu margem de desconfiança ao santo.

E a razão disso é muito simples. Tal mandamento dispôs sobre o expediente dos servidores nas repartições públicas estaduais nas semanas que antecederam o Natal e o Ano Novo, nas quais todo funcionalismo público estadual, bem como os Militares do Estado, leia-se Policiais Militares do setor administrativo, que são em número bem inferior aos Policiais Militares que diuturnamente trabalham nas ruas, puderam intercalar uma semana de folga e outra de efetivo trabalho, isso entre os dias 19 a 23 de dezembro e 26 a 30 do mesmo mês, respectivamente.

Acontece que o ilustre senhor governador poderia sim ter dado um presente para todo o seu funcionalismo, como reconhecimento pelos bons e imprescindíveis serviços prestados durante o exercício de 2016. Porém, o tiro saiu pela culatra do funcionalismo, já que aqueles que optaram pela folga estão recompensando com uma hora a mais de trabalho diário, conforme determina o mesmo Decreto, para repor as 40 horas de folga da respectiva semana não trabalhada.

Como se não bastasse não serem agraciados com esse presente de Papai Noel, além de terem que trabalhar uma hora a mais por dia, sem qualquer tipo de benefício financeiro extra, deixarão de receber o Auxílio Alimentação e a Diária de Alimentação a que fariam jus se tivessem efetivamente trabalhado naquela semana de folga.

Sem contar que, os valorosos Policiais Militares que trabalham no serviço operacional, que são os que trabalham nas ruas, nem sonharam em receber esse tipo de “benefício”, já que o horário de trabalho deles e a imprescindibilidade do serviço de preservação da ordem pública prestado à sociedade não permitem tal benesse. Mas isso eles já sabem e estão acostumados, pois nas horas em que todos estão se divertindo, quem mais trabalha é a Polícia Militar. E fizeram um juramento ético nesse sentido.

Lógico que todo profissional gosta de ter um merecido descanso extra quando isso é possível. E todas às vezes serão bem-vindos, mesmo que não recebendo os auxílios financeiros já mencionados. Mas que efetivamente, Excelência, seja como presente de final de ano, sem qualquer tipo de compensação de horário, como previu o decreto, já que algumas categorias, dentre elas a dos Policiais Militares, além de estar há quase três anos sem qualquer tipo de reposição salarial, ainda perdem os benefícios citados em troca de uma suposta folga que deve ter suas horas recompensadas na ordem de uma hora por dia.

Isso sem querer desconfiar que toda essa manobra tenha sido de propósito, a fim de deixar as diversas repartições do Estado mais vazias, para que tudo que tramitava no Congresso Nacional naquelas duas semanas, especialmente o PLP nº 257/16, que versa sobre a renegociação das dívidas dos Estados, pudesse ser aprovado, sorrateiramente, da forma que os governadores estaduais estão querendo, ou seja, prejudicando ainda mais o funcionalismo público e os Militares dos Estados.

Por derradeiro, destaco a dupla injustiça cometida, pois além de compensarmos as horas de folga, não temos recesso tal como o Poder Judiciário e o Poder Legislativo. Trabalhamos 24 horas por dia, nos 645 municípios deste Estado e recebemos um “presente de grego” no Natal.

Se quer fazer justiça, Excelência, que se faça, mas não dê esmola demais, que o santo sempre desconfiará. Estamos de olho.

 

(*) É Coronel da Reserva da Polícia Militar e Presidente da Associação “DEFENDA PM”

www.defendapm.org.br

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